ODF x OpenXML

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Amanhã é dia de de Fla-Flu no Rio de Janeiro, só que desta vez, no campo da tecnologia.

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) realiza o encontro para discutir a normalização dos padrões de comunicação eletrônica. Trata-se de definir que linguagem será adotada como o idioma oficial de qualquer documento gerado em computador, desde simples arquivos de texto, até mensagens de e-mail, planilhas de cálculo, sistemas de gestão empresarial etc.  Duas gigantes da informática sentam-se de lados opostos da mesa: a IBM, que defende o chamado ODF (sigla em inglês para Formato de Documento Aberto); e a Microsoft, que batalha pelo reconhecimento no país, e no mundo, do seu Open XML.

Na retaguarda das discussões estão dois times formados por representantes do governo, universidades e outras empresas.  O assunto que deve causar polêmica é a aprovação da plataforma ODF como norma brasileira. Um grupo de trabalho da ABNT passou os últimos meses traduzindo para o português a norma que é defendida pela IBM, um documento de 740 páginas. O ODF já é padrão reconhecido internacionalmente pela ISO (sigla em inglês para Organização Internacional para Padronização).

Ao Brasil, portanto, cabe apenas a sua tradução para que seja reconhecido localmente. O grupo liderado pela Microsoft, porém, tem um argumento nas mãos que pode complicar um pouco o meio de campo.  

A Microsoft alega que a versão do ODF reconhecida pela ISO não é compatível com o sistema de assinatura digital usado no Brasil. Isso significa que um texto gerado em ODF não garantiria acesso à autenticação digital, um recurso já usado para comprovar a autenticidade de e-mails ou de prontuários eletrônicos de um hospital, por exemplo. “Será que o padrão ODF, simplesmente traduzido para o português, é o melhor caminho?”, questiona Roberto Prado, gerente de estratégia de mercado da Microsoft Brasil.  Segundo o executivo, é razão suficiente para paralisar o processo de aprovação do ODF. “Uma norma brasileira tem que atender minimamente o padrão usado no país.”  

O Valor teve acesso a um estudo elaborado por pesquisadores do laboratório de informática da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Bauru. O material aponta que o ODF, de fato, não mostra como devem ser tratadas as assinaturas digitais. “O que vimos é que a ausência do tratamento de assinatura digital realmente gera problemas de interoperabilidade entre os aplicativos”, diz Leandro Kekimim Goulart, mestrando que participou do estudo.  

Essa alegação, porém, não faz sentido, segundo Jomar Silva, diretor-geral da ODF Alliance no Brasil, entidade que é mantida e coordenada pelas empresas que apóiam essa linguagem. “O ODF já é um padrão ISO desde março de 2006, e o que se exige para que ele seja uma NBR (norma brasileira) é apenas que esteja em língua nativa.”  Silva, que coordenou a tradução do ODF, reconhece que há algumas limitações do padrão quanto à assinatura digital, mas afirma que uma nova versão do padrão já teve início e deverá ser apresentada ainda neste ano à ISO.  

A IBM é mais incisiva no ataque. Para Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias aplicadas da companhia, o argumento da Microsoft é uma tentativa de atrasar a aprovação do ODF, já que o padrão defendido pela fabricante do Windows tem encontrado dificuldades de aprovação. “Vamos ser mais sérios, isso não é argumento”, afirma. “É como dizer que você não deve comprar um carro hoje porque virá um novo modelo no ano que vem.”  

A atual incompatibilidade do ODF com a assinatura digital não é um impeditivo para o padrão, segundo Renato Martini, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, órgão que é autoridade certificadora do país. “Como qualquer norma, com o tempo ela pode ser reescrita, não vejo um grande problema nisso.”  Segundo Jomar Silva, diretor-geral da ODF Alliance, a preocupação da Microsoft, neste momento, concentra-se nas análises de seu padrão, o Open XML. Em agosto passado, a ANBT reprovou a adoção da linguagem como padrão. Um relatório com 64 restrições técnicas relacionadas ao Open XML foi enviado à ISO. A entidade tem recolhido votos contra ou favor em todo o mundo para decidir se o padrão defendido pela Microsoft pode ou não ser uma norma internacional.  

As especificações técnicas do Open XML estão reunidas em um documento com mais de 6 mil páginas. Durante um mês, diz Silva, uma equipe da ANBT com cerca de dez pessoas debruçou-se sobre 2,5 mil apontamentos. Basicamente, trata-se de respostas a problemas que foram apontados por países de todo o mundo, inclusive o Brasil. O diretor da ODF Alliance é um dos responsáveis pela avaliação, cujo resultado será conhecido amanhã. “Não nos concentramos apenas em nossas 64 recomendações, o esforço foi de analisar todo o relatório”, comenta.  Caso os apontamentos enviados pela ISO atendam às restrições feitas no Brasil, é possível que a ABNT reveja sua posição inicial e passe a apoiar também o Open XML como padrão.

Silva prefere não antecipar resultados, mas segundo Roberto Prado, da Microsoft, as decisões já foram tomadas: “Sabemos que 50% do que foi apresentado foi aceito, mas a outra metade dos apontamentos ainda merecerá novas discussões”. Em outras palavras, o Brasil não mudou a sua posição quanto ao Open XML.  

No dia 28 de fevereiro, uma equipe apontada pela ABNT seguirá para Genebra, onde a ISO colocará o tema novamente em debate. O interesse em ter o reconhecimento da entidade é estratégico. Se a linguagem de programação é considerada um padrão pela ISO, ela passa a ser exigida, por exemplo, pela Organização Mundial do Comércio (OMC), quando esta for legislar sobre que normas técnicas vigorarão entre países. A IBM não está sozinha nessa disputa. Empresas como Google e Sun Microsystems jogam do seu lado. Mas a Microsoft também tem seus reforços. Com ela estão HP, Unisys e, quem diria, a Apple.

 

Fonte: Valor Econômico, B3, 18/2/2008, caderno Empresas-tecnologia.

 

Consulte: http://pt.wikipedia.org/wiki/OpenDocument

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